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RÁDIO CABINDA, 2006.
“A tonalidade para a viagem total pelo dia mostra-se-me, enquanto, escutando, procuro um som.”
(Peter Handke, Ensaio sobre o dia conseguido, Lisboa, Difel, 1994, p. 30)
Acredite-se que nas viagens nos modificamos ou permanecemos à medida que os kms são possuídos ou nos possuem. Cada medição do espaço se transforma, sobretudo, em assunção consciente de tempo, através de uma velocidade para o movimento que talvez seja decisão própria. Uma das estratégias para cumprir a viagem – destinada ou sim – será o som que nos engole. Seja o som das vozes do sujeito sozinho da viagem, sejam os passageiros que galopam frases ou pensamentos, sejam os auto-radios, mp3 ou qualquer outro meio de sugar o silêncio. A ilusão, sensação ou conhecimento do espaço percorrido, assemelha-se à inoperante conquista do som que jamais persiste, antes de desfaz e se regenera em variantes organizadas ou imprevistas. A recriação para os espectadores e ouvintes da viagem propicia-nos a errância e a efabulação mais do que a viagem intencionalizada, com rumo determinado, no caso do vídeo “Rádio Cabinda”. A persistência da imagem, em suas alternâncias rítmicas, coaduna-se à persistência do som, em suas alternâncias imagéticas e, assim, se transpõem quer a experiência, quer a fronteira.
Lambert, Mª de Fátima, Obras dos dias conseguidos | parte 1, Porto, Março 2008. |